Política & Economia

O que realmente explica a vitória do PT no Nordeste

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Novamente, após a vitória da presidenta Dilma Rousseff pela reeleição com 3,5 milhões de votos a mais que o adversário, Aécio Neves, a xenofobia e o ódio gratuito contra o Nordeste, decisivo no pleito com mais de 70% dos votos para Dilma, voltou a aparecer nas redes sociais.

Velhas ideias elitistas de separação “norte” e “sul” e “uso político” do Bolsa Família – apesar de São Paulo ser o segundo estado que mais recebe recursos do Bolsa Família (atrás somente da Bahia) e ter se mostrado reduto absoluto do PSDB, diga-se – ecoaram. Não somos um país dividido, mas um mosaico, como mostra o gráfico das eleições presidenciais nos municípios, abaixo. Dilma também venceu em Minas Gerais, superando Aécio Neves em sua própria “casa” – uma resposta contundente do povo de MG ao seu ex-governador e atual senador – além de vencer no Rio de Janeiro e alcançar votações muito próximas no Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

Mas o que realmente explica a massiva votação que o PT recebe do Nordeste nas últimas 4 disputas pela presidência? O Bolsa Família – programa em que 76% das pessoas que recebem trabalham com carteira formal e mais de 1,6 milhão de famílias já abriram mão espontaneamente do benefício – decifra sozinho esse “fenômeno”? Seria a popularidade absurda de Lula, um pernambucano?

Os dados e fatos abaixo, compilados por mim em reportagens diversas dos últimos 4 anos (links aqui), mostra o quanto o estado se desenvolveu absurdamente na economia, na educação, na saúde, nos investimentos que atrai, na força do seu mercado, na inclusão social e mudança da pirâmide de renda. O quanto o governo do PT (2003-2014) transformou a região muito, mas muito além do Bolsa Família, beneficiando todos os extratos da população nordestina e colocando no mapa uma região historicamente negligenciada.

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Leia também: A responsabilidade jornalística e a regulação da mídia em xeque

É claro que o Nordeste ainda tem muito para avançar, no controle da violência, nos indicadores sociais e econômicos e cresce acima da média brasileira justamente porque passou tanto tempo esquecido e tem tanto para melhorar. Responsabilidade compartilhada entre a União, estados e municípios.

O mérito inegável do Partido dos Trabalhadores, que uma parcela felizmente minúscula da população, repleta de ódio e estupidez, prefere ignorar, é colocar a região de volta no caminho de protagonista do Brasil.

 Emprego, renda, crescimento e desenvolvimento social

  •  Em 2002, 4,8 milhões de nordestinos tinham emprego formal. No final do ano passado, eram 8,9 milhões.
  • Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 2001 e 2012, o nordestino teve o maior ganho de renda entre todas as regiões, o que fez com a participação da base da pirâmide social caísse 66% para 45% –ou seja, mais de 20 milhões de pessoas deixaram a pobreza.
  • Com mais de um quarto da população brasileira, a classe média no Nordeste foi engrossada em 20 pontos percentuais na última década, alcançando 42% dos habitantes.
  • A classe A também ganhou agregados e saltou de 5% para 9% desde 2002.
  • O poder de compra dos nordestinos já chega quase a 450 bilhões de reais, valor que corresponde à economia de países como Peru e República Checa.
  • O programa de cisternas levou mais de 1 milhão de reservatórios de água para pessoas carentes.
  • O Luz Para Todos beneficiou mais de 7 milhões de pessoas somente no Nordeste, com mais de R$6 bilhões de investimento na região.
  • Na última década, entre 2003 e 2013, o Nordeste cresceu mais do que a média nacional, com avanço de 4,1% ao ano, enquanto o país ficou na marca de 3,3%. Números divulgados pelo Banco Central (BC) apontam que a região responde por 13,8% da economia nacional.
  • Isso representa um crescimento de 41% em 10 anos, ante 33% da média nacional.
  • Em 2012, por exemplo, a economia local cresceu o triplo da brasileira.
  • Segundo cálculos do Banco Central, a economia nordestina cresceu 2,55% no segundo trimestre de 2014, na comparação com o primeiro, que já havia mostrado expansão de 2,12%.São taxas sem paralelo no restante do país. Nenhuma das demais regiões obteve dois trimestres consecutivos de alta, e as taxas, mesmo quando positivas, foram bem mais modestas. Pela medição do IBGE, a economia do Brasil encolheu 0,2% de janeiro a março e 0,6% de abril a junho.
  • O Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste crescerá 2,6% em 2014, muito acima da média nacional.
  • O Nordeste criou 1,04 milhão de postos de trabalho no primeiro trimestre de 2014, o que representa quase 60% do total de vagas abertas em todo o Brasil, segundo dados do IBGE.
  • Além de ter apresentado o maior resultado em termos de geração de vagas no primeiro trimestre de 2014, a formalização na região também é forte e tem colaborado para a intenção de consumo se manter em níveis elevados, avaliou Bentes. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram alta de 2,2% no emprego formal no Brasil em 12 meses até abril. No Nordeste, o avanço é de 3,3%, com destaque para o comércio e os serviços.
  • Levantamento da Firjan aponta que, na última década, 97,8% dos municípios nordestinos apresentaram crescimento do IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal).

 Educação e Saúde

  •  Em 2000, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o Nordeste tinha 413.709 universitários. Em 2012, esse número saltou para 1.434.825. Com isso, a região ultrapassou o Sul e passou a segunda com maior número de estudantes do ensino superior –20% do total–, atrás apenas do Sudeste.
  • Nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, 18 universidades federais foram abertas –sete delas no Nordeste, todas fora das capitais.
  • A região tem conseguido fazer subir o número de pessoas com 18 anos ou mais nas universidades. Formados, eles passarão a ganhar 15,7% a mais por ano de estudo, segundo o Data Popular.
  • O SUS [Sistema Único de Saúde] está presente em todos os municípios nordestinos, principalmente com suas equipes de PSF [Programa de Saúde da Família], e o ensino fundamental é praticamente universalizado.

 Bolsa Família

  •  Em 2013, o Bolsa Família deve repassar 25 bilhões de reais para mais de 13,8 milhões de famílias, metade delas no Nordeste. Na região, quatro em cada dez famílias recebem o benefício social, com valor médio de 152 reais por mês.
  • De acordo com estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Bolsa Família tem efeito multiplicador de R$ 2,40 sobre o consumo final das famílias, por isso setores como comércio e serviços – formado no Nordeste, principalmente por pequenos negócios -, que atendem esse consumidor final, são os mais beneficiados. Além disso, o levantamento mostra que cada real investido no programa gera um retorno de R$ 1,78 para a economia.

 Agricultura

  •  Até 2022, segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Brasil plantará cerca de 70 milhões de hectares de lavouras e a expansão da agricultura continuará ocorrendo no bioma Cerrado. Somente a região que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia terá, nesse mesmo período, o total de 10 milhões de hectares, o que representará 16,4% da área plantada e deverá produzir entre 18 a 24 milhões de toneladas de grãos, um aumento médio de 27,8%. Estamos falando do Matopiba, região considerada a grande fronteira agrícola nacional da atualidade.
  • O Matopiba é peça-chave para o desenvolvimento da agricultura e para a segurança alimentar do País. “O investimento na produção sustentável na região do Matopiba será fator de segurança alimentar para o Nordeste, assolado por secas que matam as plantas de sede e os animais de fome”, apontou o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, que prevê com o crescimento do agronegócio um valioso desenvolvimento social para a região.
  • A agricultura familiar é responsável pela produção dos principais alimentos consumidos pela população brasileira: 84 % da mandioca, 67% do feijão; 54 % do leite; 49 % do milho, 40 % de aves e ovos e 58 % de suínos.
  • No Nordeste a agricultura familiar é responsável por 82,9 % da ocupação de mão de obra no campo. 

 Tecnologia

  •  O Porto Digital, em Recife (PE), já perdura por mais de uma década gerando cerca de 6 mil empregos em quatro centros de pesquisa de tecnologia, quatro multinacionais, além das startups que também estão sediadas ou possuem escritórios no parque. Foram aproximadamente R$ 90 milhões investidos na reforma da zona portuária da capital.
  • De acordo com um estudo feito em 2010, o Porto Digital fatura quase R$ 900 milhões por ano, engloba quase 500 empreendedores em seu parque e paga salários acima de R$ 2,5 mil. A maior parte de sua mão de obra possui ensino superior e pelo menos um segundo idioma. Atualmente, o Porto Digital se caracteriza por oferecer alta taxa de empregos ao público jovem: 35% dos trabalhadores de lá têm entre 17 e 25 anos.
  • Na maior parte, as empresas que estão instaladas no parque são voltadas para o desenvolvimento de software para gestão empresarial, soluções para o mercado financeiro e para a área de saúde, mas também há startups que desenvolvem games, sites e intranets empresariais e ainda controle de trânsito e mecanismos de segurança patrimonial.
  • Grandes empresas como Microsoft, IBM, Samsung e Motorola possuem bases instaladas no parque, sendo que a Motorola mantém o único centro de verificação e integração de teste de software para celulares da marca no mundo – um investimento de US$ 20 milhões da fabricante estadunidense.
  • No parque, a maior parte das companhias atua na oferta de serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) – são 147 empresas neste setor, das pouco mais de 200 que têm base no pólo. 89% das empresas no Porto Digital são matrizes.
  • Campina Grande, na Paraíba, é um dos 74 pólos tecnológicos do país, mapeados pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anproteca). Concilia todos os predicados necessários: uma centena de empresas de TI, mil empregos gerados e o maior número proporcional de PhDs do Brasil – 600.
  • Nos últimos anos, o setor alavancou para 43 países as exportações de software e hardware, que vão de bancos de dados de alta complexidade às mais simples recicladoras de cartuchos. Entre seus clientes estão nomes como HP, Nokia, Petrobras e Interpol, a polícia internacional para o crime organizado. 
  • Ao menos 250 novas mentes aportam todos os anos para preencher as vagas de Ciência da Computação e Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Nos próximos cinco anos, um contingente de quase mil cérebros inundará o mercado local de tecnologia da informação (TI).

Consumo e crédito

  •  Pesquisa do Data Popular, citada pela EXAME, aponta que o potencial de vendas no Nordeste, durante os próximos 12 meses, soma 1,2 milhão de imóveis, 1,6 milhão de carros e 1 milhão de motos. O levantamento ainda indicou que os nordestinos estão cada vez mais sofisticados. A região concentra a maior intenção de compra do país em itens como notebooks, smartphones e tablets.
  • Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) caiu 7,4% na média do Brasil quando se compara junho deste ano com igual mês de 2013. Nesta mesma base, a ICF cresceu 4,3% no Nordeste, para 135 pontos, o nível mais alto entre as regiões e o único resultado ainda crescente.
  • O Nordeste foi a região em que as operações de crédito das empresas mais cresceram entre 2007 e 2011. Dados do Banco Central apontam que, enquanto que no Brasil foi registrado um aumento de 126%, chegando a R$ 1,044 trilhão, as empresas nordestinas responderam por uma expansão de 200%, somando R$ 121 bilhões.
  • No que se refere ao pequeno varejo e atacado, o Nordeste detém 27% do número de lojas do Brasil, concentradas na Bahia, Pernambuco e Ceará, que juntas somam 69% do faturamento da região.
  • Salvador ocupa a quinta posição do ranking de Potencial de Consumo, IPC MAPS 2011, ficando atrás de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba, com R$ 38 bilhões de potencial de consumo.
  • A indústria de bebidas também está aquecida na região, onde o consumo de cerveja cresceu 10,2% desde 2010, ante 4,9% no resto do país.

 Investimento, mercado e infraestrutura

  • A transposição do Rio São Francisco está 63% concluída, empregando 11.500 pessoas e beneficiará 390 municípios em quatro estados: Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte em 470km de canais.
  • Dezenas de empresas já estão realizando ou realizam investimentos significativos na região, com instalação de novas fábricas, polos de desenvolvimento e novos projetos.
  • Em Goiana, a 60 quilômetros de Recife, no norte de Pernambuco, um novo polo farmacoquímico deve ser concluído até 2016. Numa área de 287 hectares, estão sendo instaladas 11 empresas de remédios e biotecnologia — um investimento total de 1 bilhão de reais que criará 1443 novos empregos.
  • Entre as companhias que vão desembarcar na região estão Hemobrás, Normix, Vita Derm, Hair Fly, Rishon, Brasbioquímica, Luft Logistics, White Martins, Quantas Biotecnologia, Biologicus e Multisaúde.
  • No início do ano, a Ambev inaugurou uma nova fábrica na mesma cidade, um investimento de 725 milhões de reais que gerou 1 000 empregos.
  • Na Bahia, a Heineken amplia a operação da fábrica de Feira de Santana, enquanto o  Grupo Petrópolis, fabricante das cervejas Itaipava e Petra, abriu em novembro sua primeira fábrica nordestina em Alagoinhas e uma segunda fábrica em Itapissuma (PE). A empresa já está contratando para os 600 postos que serão criados.
  • Um dos segmentos mais favorecidos pelo aumento de renda no Nordeste foi a indústria de alimentos e bebidas, o que tem atraído empresas como Nissin Ajinomoto, Mondelez, Natto e Companhia Brasileira de Sorvetes. Só em Pernambuco, 22 grandes fabricantes desembarcaram nos últimos seis anos.
  • E oito novas fábricas ficarão prontas até o ano que vem — um investimento total estimado em 2,8 bilhões de reais, com a geração de mais de 6 500 empregos diretos. A pernambucana GL Empreendimentos — de massas e biscoitos — inaugura em julho sua nova indústria de alimentos, um investimento de 143 milhões de reais.
  • Com grande potencial de ventos, o Nordeste é o principal centro da produção de energia eólica no Brasil. Apesar de nova, essa é a fonte de energia que mais cresce no país. “Os investimentos só começaram há cerca de quatro anos, mas já cresceram 1 500%”, afirma Elbia Melo, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A região é responsável por 78,3% da capacidade de geração de energia eólica no Brasil, com 132 parques considerados aptos, em operação ou em testes. Além deles, 58 parques eólicos estão em construção e outros 263 já foram contratados nos leilões energéticos. A previsão é que a energia eólica gere 80 000 postos de trabalho em toda a sua cadeia produtiva só no Nordeste.
  • No ano passado, Camaçari recebeu a fábrica da gigante chinesa  JAC Motors, um investimento de 900 milhões de reais que permitiu a geração de 3 500 empregos diretos e 10 000 indiretos.
  • A indústria automotiva decolou no Nordeste com o anúncio da instalação da fábrica da Fiat em Pernambuco, há três anos. Para garantir a produção de 40% da demanda de peças e componentes da montadora, está sendo criado o Parque de Fornecedores no Polo Automotivo de Goiana, na região metropolitana de Recife.
  • São 16 empresas — globais e nacionais — que ocuparão 12 edifícios nos quais serão produzidas 17 linhas de componentes. Em uma área construída de 270 000 metros quadrados, o Parque de Fornecedores ficará junto à fábrica da multinacional italiana, em um modelo integrado de produção.
  • Ao todo, o Polo Automotivo vai gerar 8 000 empregos diretos até o fim de 2015. Cerca de 4 000 dessas vagas serão criadas apenas nas fornecedoras de autopeças, que reúnem empresas como Magneti Marelli/Faurecia, Lear, Adler e Pirelli. A Fiat, por sua vez, vai contratar 600 profissionais de nível superior ainda neste ano.
  • Estimativas que apontam investimentos na casa de R$ 6 bilhões no segmento de hotelaria e turismo para a região. O FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste), administrado pelo BNB (Banco do Nordeste do Brasil) programou investimento de mais de R$ 500 milhões à edificação de novos estabelecimentos do setor hoteleiro.
  • A cadeia produtiva do petróleo também está aquecida no Nordeste, e a indústria naval é uma das que mais têm contratado. Com investimentos simultâneos ocorrendo em diversos estados, o setor deverá gerar cerca de 15 000 empregos diretos na região, com boas oportunidades para engenheiros navais, cujos salários estão cotados entre 5 000 e 14 000 reais.
  • O grande símbolo do deslocamento da indústria naval do Sudeste para o Nordeste é o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), sediado no Complexo de Suape, em Pernambuco, desde 2008 e com uma carteira de investimentos de 8,1 bilhões de dólares. O estaleiro conta com 6 200 empregados e deve chegar a 7 000 até o fim deste ano.
  • O Porto de Suape, que teve um aporte de R$ 1,2 bilhão em investimentos, cresceu 26% em 2012 e empregou 60 mil pessoas.
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A esquerda sofre a maior derrota nas eleições 2014

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Seja qual for o resultado do segundo turno, o que se entende por “esquerda brasileira” já passa pelas eleições de 2014 como a maior derrotada do pleito. Por mais que a polarização seja questionada, dada a guinada para o centro de PSDB e PT, a verdade é que existe, sim, diferenças essenciais entre os principais partidos do país.

No final das eleições de 2010, produzi um especial com alguns artigos. Entre eles, “A agonia da extrema-esquerda”, “A encruzilhada da direita”“A elasticidade do efeito Marina”“O jeito Aécio de governar” e “Além de Lula”.

Considerando apenas os partidos de esquerda, a queda é brutal: o “fenômeno” Heloísa Helena teve 6,5 milhões de votos em 2006 (terceiro lugar naquelas eleições), quatro vezes mais que Luciana Genro, também pelo PSOL, conseguiu em 2014. Apesar de todo o barulho nas redes sociais, de toda a sua participação incisiva nos debates, levantando pautas que nenhum outro candidato, com exceção de Eduardo Jorge, poderiam encarar abertamente: aborto, LGBT, drogas, etc. Em termos de corrida presidencial, o PSOL encolheu absurdamente em 8 anos. Na conta de 2010, os partidos tradicionais de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCO) somaram 1,2 milhão de votos.

Neste pleito, Luciana Genro, Zé Maria, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta, somados, alcançaram 1,8 milhão de votos, puxados pelo bom desempenho de Luciana (o dobro de Plínio em 2010, ainda que quatro vezes menos que Heloísa Helena em 2006).

Outras observações:

  • Dilma perdeu 4,4 milhões de votos (43,2 contra 47,6 em 2010)
  • O PSDB somou 1,7 milhão de votos a mais (34,8 de Aécio contra 33,1 de José Serra em 2010)
  • Marina Silva, considerando o aumento de 7 milhões de eleitores, permaneceu praticamente estagnada, com leve alta, saindo de 19,6 milhões em 2010 para 22,1 em 2014.
  • Impressiona a adesão que o discurso homofóbico de Levy Fidelix conquistou, saindo de 57,9 mil votos em 2010 para 446,8 mil em 2014, aumento de quase 800%, disparado a maior diferença entre o desempenho anterior e o atual.
  • Pastor Everaldo e seu discurso neo-liberal freak angariou 780 mil votos. Eduardo Jorge, que representa um partido confuso, que poderia ser classificado de centro, apesar de algumas posições progressistas, ficou com 630 mil votos.

Se tirarmos a excrescência do crescimento exponencial de Fidelix, o PT tem muitos motivos para repensar algumas práticas, sua relação histórica com a militância e as centrais sindicais, que se afastaram do partido durante o governo Dilma. A derrota clamorosa do partido em Pernambuco, terra de Lula, onde não elegeu sequer um deputado federal, é o sintoma mais evidente.

O desempenho pífio em São Paulo, onde Geraldo Alckmin se reelegeu com quase 60% dos votos válidos, Alexandre Padilha alcançou somente o terceiro lugar, com 3,8 milhões de votos, José Serra venceu Eduardo Suplicy para o Senado, acabando com três mandatos consecutivos do senador e Dilma amargou uma diferença de 44,2% para Aécio contra 25,8% dela, ou 4 milhões de votos a menos, representando quase toda a perda de 2010 para cá, é muito significativo. Na câmara estadual, apesar dos 22 deputados eleitos pelo PSDB e 14 pelo PT, além dos 14 deputados federais do PSDB e 10 do PT, os tucanos alcançaram a maioria dos deputados campeões de votos. No total, o PT foi o que mais perdeu deputados federais em todo o país, 18. O PSDB o que mais ganhou, passando de 44 para 55.

Em 2010, no texto sobre Marina Silva, afirmei:

Qualquer afirmação sobre a sua influência nas eleições, portanto, precisa ser cuidadosa. Marina tomou uma nova frente, com certeza fez muito mais do que imaginou que fosse conseguir. Ao contrário de Heloísa Helena, que sumiu do mapa político nacional em 4 anos e amargou o fracasso de não conseguir se eleger sequer senadora por Alagoas em 2010, tudo indica que Marina seguirá tendo papel importante na vida política nacional e, provavelmente, firmará sua posição como liderança absoluta do ambientalismo no Brasil.

É pouquíssimo provável que aceite algum ministério no governo Dilma. Se conseguir manter-se atuante e agregar novas forças ao jogo político (que ela reluta em fazer), sua candidatura pode ganhar corpo interessante se quiser vir novamente em 2014. Ficando no PV ou não.

Independente das possibilidades, Marina tem tempo e é inteligente o suficiente para definir os melhores passos da sua vida política. Sua presença de destaque em 2010, indubitavelmente, foi positiva para o país. Ela pode conseguir um pouco mais.

O problema é que Marina não fez absolutamente nada em 4 anos. Seu maior feito foi ter sido incapaz de reunir as assinaturas necessárias para a criação do seu partido, Rede Sustentabilidade, num país em que praticamente qualquer um consegue isso. Sua opção foi aceitar a posição de vice no PSB de Eduardo Campos, gerando uma chapa curiosa, em que as propostas assinalam para um partido “socialista de direita”. Apesar de toda a comoção natural com a morte trágica de Eduardo, sua crescida súbita nas pesquisas, chegando a “empatar” com Dilma no primeiro turno e supostamente vencê-la no segundo, de acordo com os institutos, Marina Silva acabou tendo o mesmo desempenho de 2010. Testado e reprovado em duas ocasiões consecutivas, incluindo a atual eleição com “tudo favorável”, é razoável afirmar que este foi o fim das pretensões maiores de Marina no quadro político nacional.

O “súbito crescimento” de Aécio, na verdade, é menos devido a sua notória melhora nos debates (cabe lembrar que Aécio jamais havia participado de qualquer debate televisivo nas suas eleições anteriores para governador e senador), evoluindo muito do primeiro ao último, da campanha em si e na imagem que procurou vender, mas principalmente na cota histórica que o PSDB sempre teve, além do sentimento anti-PT generalizado. Ainda que tenha crescido em comparação com Serra de 2010, como já dito, o desempenho de Aécio é bem inferior ao de Alckmin em 2006, que conquistou 40 milhões de votos (sem uma terceira força tão polarizada como Marina Silva, diga-se).

Vejamos o que escrevi sobre Aécio em 2010:

Resta Aécio Neves. A raposa imprevisível. O único nome da direita capaz de fazer frente ao governo em 2014.

Aécio tem trunfos: o fator Tancredo Neves, os 8 anos de governo em Minas, segundo maior colégio eleitoral, com maciça aprovação, a menor rejeição que seu nome tem em São Paulo comparado a Serra e Alckmin, a capacidade de transmitir um conceito de “centro”, dado ao “morde e assopra”, a fazer oposição “generosa e firme”. Se aproximando de Lula e batendo de leve quando achava que tinha de bater. A velha malícia mineira.

Neves acaba de dar entrevista para a Folha defendendo uma “refundação do PSDB”. Quer que o partido “assuma o seu passado sem vergonha, realce a importância que as privatizações tiveram para o país, defina com larga antecedência um plano de governo”. O que posso dizer é: boa sorte com isso. Aécio será, disparado, o principal nome da oposição no governo Dilma. Aparecerá muito na mídia, que “o adora”. Preparando o terreno para 2014. Aécio pode ainda, dada sua forte relação com líderes importantes do PSB – a terceira força do governo atual, com 8 governadores, etc – cooptar o PSB para o lado do PSDB, criando uma coligação mais forte contra PT/PMDB.

É exatamente a situação que se assinala agora: a ala do PSB mais a favor de uma aliança com Aécio tende a vencer a opção do presidente do partido, Roberto Amaral. Marina, que é historicamente do PT, ministra de Lula, deve apoiar Aécio impondo condições, tentando conquistar algo para além da neutralidade declarada em 2010, que não gerou capital político nenhum para ela. No entanto, é altamente questionável a capacidade de transferência de votos pessoal de Marina Silva para o seu eleitorado, tão heterogêneo, tão misto, com interesses e motivações diversos. O único político capaz de realmente garantir transferência de votos no Brasil hoje é Luís Inácio Lula da Silva. Como 2010, quando a maioria dos votos de Marina migrou para Serra, deve acontecer o mesmo em 2014.

Em suma, o segundo turno coloca, de novo, PT e PSDB frente a frente, lidando com suas heranças, feitos e erros acumulados nos últimos 20 anos. Assusta o quanto o sentimento anti-PT, baseado em generalismos e platitudes que não encontram corpo no mundo real, como a suposta pecha de “corrupto”, algo até brando quando comparado o histórico de corrupção de FHC, o mensalão mineiro, os comprovados escândalos do metrô em SP, os desvios de Aécio Neves e Anastasia em Minas Gerais na saúde e educação, o aeroporto para a família de Aécio em Cláudio (MG) e por aí afora. Nem o próprio Aécio parece capaz de abordar o que fez como Senador, num mandato nulo em que dedicou a tecer críticas genéricas ao governo e viajar para o Rio de Janeiro. Resta as suas “realizações no governo de Minas Gerais”, altamente questionáveis, como o aumento absurdo da dívida do estado e o aumento superior a 52,3% nos índices de homicídio entre 2002 e 2012, contra a sua balela de “choque de gestão”.

Nada indica que o segundo turno será capaz de subir o nível e debater diferenças de propostas ao invés de corrupção e alianças espúrias. As “mudanças” exigidas pelas ruas em 2013 tiveram pouco ou nenhum impacto prático nos governadores e senadores já eleitos, nos segundos turnos desenhados e nos deputados vencedores. Como afirma o Diap, o Congresso será o mais conservador desde 1964, o que dificulta bastante a possibilidade de mudanças reais e reformas estruturais nos próximos 4 anos, seja com Dilma ou Aécio.

É a prova de que sobra muito oba-oba e um show de “reivindicações” sem nenhuma profundidade, faltando muita educação política, consciência histórica, noção de pacto federativo e penetração nas camadas mais profundas da política e administração pública na população em geral. Com isso, perdemos todos.

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Thomas Piketty e o óbvio ululante do capitalismo

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Sobretudo, o grande mérito do economista francês Thomas Piketty é colocar no centro do debate mundial, extrapolando o gueto acadêmico da economia e sociologia – e qual área acadêmica não é um gueto? – a questão da desigualdade evidente do capitalismo, porquê ela existe e como chegamos à ela no contexto da economia contemporânea.

É o óbvio ululante sistematizado, bem estruturado, resultado de toda a carreira acadêmica de Piketty e seus muitos colegas, parceiros e colaboradores. As principais conclusões de “O Capital no Século XXI” circulam pela mídia mundial, pelas redes sociais num momento relevante, pós crise de 2008, pós Occupy Wall Street e pós um turbilhão de coisas que aconteceram nos últimos anos, direta ou indiretamente ligadas aos problemas intrínsecos do capital que não preciso elencar aqui.

Vendendo mais de 100 mil exemplares somente nos últimos 60 dias, Piketty se mantém nas listas dos mais vendidos dos Estados Unidos e foi lançado ao curioso status de economia pop. Entender suas origens, parece-me, é importante. Escreve Ivan Martins:

“Como estudioso de desigualdade mais respeitado da última década nos meios acadêmicos, é improvável que Piketty seja efêmero. Prodígio matemático, ele chegou aos Estados Unidos em 1993 para dar aulas de economia no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), uma das universidades mais respeitadas do mundo. Tinha 22 anos. Três anos depois, voltou à França, convencido de que os americanos se preocupavam mais com matemática e teoria do que com o mundo real. Admirador do historiador Fernand Braudel e do antropólogo Claude Lévi-Strauss, sonhava testar com fatos as convicções que sobravam no seu meio. Mergulhou na pesquisa histórica sobre renda e patrimônio e criou, em 15 anos de trabalho, com ajuda de colaboradores no mundo todo, um banco de dados sobre a evolução da renda e da desigualdade que cobre 30 países. Esse acervo é a base de seu livro.”

E lembra Pascal Emmanuel-Gobry, no Wall Street Journal.

“Alguns no pequeno círculo dos economistas respeitados da França dizem que Piketty pode ser melhor compreendido através de sua história pessoal. Ele vem de uma família da classe trabalhadora. Seus pais foram membros ativos do radical partido trotskista Lutte Ouvrière (Luta dos Trabalhadores). Após concluir o ensino médio numa escola pública, aos 16 anos, ele foi aceito na Ecole Normale Supérieure, a mais seletiva das superseletivas grandes faculdades francesas. Ele terminou o doutorado aos 22 anos, tendo recebido um prêmio da Associação Francesa de Economia pela melhor tese do ano. O tema: a redistribuição da riqueza.

Em suma, Piketty é algo cada vez mais raro: um produto puro da meritocracia francesa, um jovem da classe trabalhadora que frequentou escola pública, conseguiu entrar numa faculdade de elite e acabou numa área prestigiada do serviço público (ele ajudou a fundar e liderou a Escola de Economia de Paris). Esse foi o modelo responsável por reviver a França no pós-guerra, mas que agora está em frangalhos.”

Se Piketty não é tão radical quanto parece – já que se opôs à última medida do governo socialista francês, as famosas 35 horas de trabalho por semana, e defendeu cortes nos impostos trabalhistas – é um alívio que não seja. Uma das premissas do radicalismo, especialmente o tipo de radicalismo caduco e viciado que (felizmente) uma parte cada vez menor da esquerda mundial conserva, é que ele fica restrito a pouquíssima gente e tem falhas clamorosas já na fonte.

Não é o caso do francês e esta é ótima notícia. O que ele apresenta?

Afirma que a distribuição de renda, marca da prosperidade no século XX, estancou e hoje regride. Desde os anos 1970, as curvas de desigualdade começaram a subir na Europa e nos Estados Unidos. Na última contagem, em 2010, o 1% mais rico dos EUA detinha 20% da renda total, percentual equivalente ao da Europa em 1910 – época de privilégios hereditários, em que a mobilidade social era pífia; a meritocracia, mínima; e os mais pobres, estruturalmente condenados a continuar assim – a menos que casassem com a fortuna.

(…)

Com a desaceleração das economias ocidentais e a suspensão dos controles sobre as finanças, Piketty afirma que a força da concentração voltou a prevalecer – e sugere, polidamente, que a tendência é piorar no século XXI. Se alguma providência não for tomada, diz ele, poderemos chegar rapidamente a um cenário em que 0,1% da população mundial – cerca de 4,5 milhões de pessoas – detenha entre 40% e 60% da riqueza global. Seria a volta ao mundo econômico de Charles Dickens e Machado de Assis, em que herdeiros afortunados viviam cercados de aproveitadores ou dependentes. Nesse universo, havia pouco espaço para o mérito pessoal, para a iniciativa empreendedora ou para uma vida estável de classe média.

Os supersalários e/ou a brutal diferença entre a remuneração dos mais ricos – nas mais diversas formas do capitalismo videofinanceiro – faria o resto. Não é novidade e estamos rodeados de exemplos suficientes que corroboram a tese. É só olhar ao redor, acompanhar as notícias e o mercado mundial, o óbvio ululante de Piketty, graças a alguma coisa, embalado com verniz inteligível, chega disponível para uma parcela maior de pessoas e chama atenção para o problema.

Em excelente (e longo) artigo na Piauí, Marcelo Medeiros traz alguns recortes interessantes:

Como a concentração da riqueza afeta a dinâmica política e as oportunidades econômicas, seus resultados de longo prazo são difíceis de prever.

Piketty argumenta que os mercados não possuem nem os mecanismos nem os incentivos para frear esse processo. Ele precisa ser controlado por instituições, a começar pelo Estado. Em apoio a esse raciocínio, Piketty invoca a história de mais de vinte países: nos períodos em que os mercados são desregulados, a desigualdade aumenta; nos períodos em que são regulados, cai. Um debate que era antes travado de forma acalorada no terreno da especulação e da ideologia agora tem mais de 100 anos de estatísticas exaustivas como critério de desempate.

 Uh-oh, olha o Estado aí novamente. O Estado que foi chamado para limpar a sujeira que a crise de 2008 gerou. Em resumo, para salvar da bancarrota completa centenas de empresas, bancos, etc. Para tirar do bolso do contribuinte o que a falta de regulação gerou, devolvendo os ativos podres que esse mesmo sistema nos vendeu.

Explica Marcelo:

Temos um Estado com razoável capacidade para fazer investimentos em políticas públicas. Mas que usa uma parte pequena dessa capacidade para promover a igualdade. Proporcionalmente, o poder público contribui mais para as rendas dos 5% mais ricos do que para as rendas dos 50% mais pobres, mesmo depois de considerar as transferências da assistência social. Ou seja, por não ser suficientemente igualitarista, o Estado contribui para aumentar a desigualdade, em vez de minorá-la. Serviços públicos, como os de educação e saúde,  melhoram o cenário, é verdade, mas não são suficientes para revertê-lo.

O imposto de renda, que no Brasil tem alíquotas ainda menores que as dos Estados Unidos, ajuda a frear os níveis de desigualdade, mas pouco. O imposto de renda brasileiro é bastante progressivo, mas limitado. Isso porque a carga do imposto de renda no país é baixa, ao contrário do que se costuma anunciar. “Escorchante” é um adjetivo que só se usa para tributos. Os dados de Piketty mostram que de escorchante o imposto de renda não tem nada: países desenvolvidos optaram por ter uma carga de impostos muito maior do que a nossa quando ainda estavam no nível em que estamos hoje. Além disso, enquanto esses países sempre taxaram patrimônio e heranças, no Brasil esses tributos são de pouca importância. Nos Estados Unidos, boa parte da educação pública é financiada com o equivalente do nosso iptu,e a prática de doações a fundações é disseminada porque os impostos sobre heranças são expressivos.

Ao que tudo indica, a desigualdade entre os ricos e o restante da população é um tipo particular de desigualdade, bem mais particular do que a diferença entre pobres e não pobres. Aquilo que tradicionalmente se usa para explicar as diferenças de renda entre os 99% mais pobres não explica tão bem a desigualdade entre o 1% mais rico e os demais.

“Todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, lembram? É ótima notícia que isso esteja, em todas as esferas e de todas as maneiras, sendo finalmente posto em cheque.

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Política & Economia

Alan Greenspan: risco, natureza humana e o futuro das previsões

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“Quando o Lehman entrou em default em 15 de setembro de 2008, as perdas globais das ações de empresas negociadas em bolsa atingiam 16 trilhões de dólares. Semanas depois, já somavam 35 trilhões. Ao fim, as perdas na economia como um todo chegaram a cerca de 50 TRILHÕES DE DÓLARES, o equivalente a quatro quintos do PIB global de 2008. (…) Não vejo nenhuma maneira de eliminar exuberâncias irracionais periódicas sem reduzir significativamente a taxa média de crescimento da economia“.

Alan Greenspan, ex-presidente do FED e guru global, lambendo as feridas no seu novo livro, “O Mapa e o Território – Risco, Natureza Humana e o Futuro das Previsões” (Cia das Letras) te lembrando porquê não vai ficar tudo bem e defendendo o fim da obsessão com o crescimento econômico. Algo impensável há pouquíssimo tempo atrás. De reputação quase indestrutível, Greenspan se viu no centro da maior crise da história do capitalismo (segundo ele mesmo) e agora tenta fazer o “mea culpa”. Compreensível.

Em 2010, escrevi isso aqui: a ressaca do mundo no vermelho. Vida que segue, pataquadas que se acumulam, aquele clima geral de anestesia desconfortável. Um rombo desse tamanho – 50 trilhões – não desaparece. É uma hecatombe que repercute de maneira brutal nestes 5 anos de maneira evidente ou não. Não por acaso, o governo americano foi obrigado a entrar numa encarniçada batalha política para elevar o teto da dívida, para impedir um calote. O primeiro calote profundo da história do governo dos Estados Unidos só foi evitado porque resolveram esticar um pouco mais a corda. Tido como os títulos públicos mais “seguros” do mundo, praticamente com “risco zero”, um novo tombo representaria um grande baque na economia global.

A gravidade da situação, claro, também é fruto da quantidade absurda de dinheiro usada para salvar empresas e bancos completamente falidos e resgatar “títulos podres”. É a famosa história do cobertor curto demais, que cobre a cabeça e deixa os pés expostos. Da solução paliativa. Do buraco negro que não dá pra sair com meia dúzia de conluios e assinatura.

Conceitualmente, Greenspan, um ícone do capitalismo, afirma que a única saída para tentar – tentar – diminuir o rombo e buscar alternativas realmente eficazes no longo prazo é diminuir o fetiche do crescimento a qualquer custo. Algo que soaria como exorcismo dos brabos de comunistas barbudos do interior da Sibéria em qualquer tempo. O diagnóstico de Greenspan é tão simples quanto categórico: do jeito que está, não dá mais. E isto vale para o mundo todo.

Quais caminhos vamos escolher trilhar para sair desse buraco que cavamos com gosto é que definirá a possibilidade real de sair dos escombros.

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Política & Economia

Marshall Berman (1940-2013)

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Marshall Berman morreu na última quarta-feira, 11 de setembro (realmente uma data maldita), aos 72, por ataque cardíaco. Berman, que descobri aos 17, exerceu grande influência na minha formação. Pela primeira vez eu encontrava um filósofo (e educador, cientista político) que conseguia analisar Marx sob uma ótima completamente nova, fresca, lúcida, sem os ranços de linguagem, sem vícios ideológicos, autêntico, “moderno”.

“Tudo Que é Sólido Desmanchar no Ar”, o livro chave de Berman, lançado em 1982, afirma que Marx foi o primeiro dos modernistas. E traça paralelos soberbos que vão desde ícones da cultura ocidental clássica, como Goethe, passando pelo Velho Testamento (e sua origem judaica) até a urbanização de Nova York, sua casa, cidade tão cara para Berman, que influenciou tanto sua visão de mundo e que deu origem a seus dois últimos livros. Berman também abraça e retorce a cultura de rua e a cultura pop da sua época, abordando desde o grafitti até o hip-hop dos Beastie Boys, grupo que ele coloca no seu panteão.

É o tipo do cara que dialoga de forma absurdamente culta, porém fluída, que mergulha no próprio tempo em que vive e consegue olhar para teorias estabelecidas e traçar novas e vigorosas ideias. O urbanismo, a arquitetura – vale a pena pesquisar sua relação “curiosa” com Oscar Niemeyer – o “caos” organizado das cidades, os conflitos e paradoxos da vida moderna numa prosa fluída, acessível e encantadora.

É o sujeito que você teria enorme prazer em sentar na mesa do bar, pedir uma cerveja e dialogar durante horas sobre temas que fazem parte da sua vida, quer você perceba ou não, de maneira pra lá de agradável, ainda que incomode. É um dos melhores e mais importantes pensadores do nosso tempo. Obrigado por tudo, Bermão.

Leia:

Marshall Berman, Marxist Humanis Mensch

Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade

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Política & Economia

Guia prático para a maioria dos clichês sobre o Bolsa Família

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André Forastieri, há muito tempo, se tornou o “agent provocateur” do R7. Apesar de outro camaradinha ter adotado a pecha de “o provocador” do site, que é melhor nem comentar. Conheço o Forasta e conhecendo a figura você entende um pouco mais da mente do cara, o problema é o sinalizador no meio de uma ilha de malucos que é o chamariz que seus textos costumam se tornar. Pois bem, nesse aí, fresquinho, sobre o bolsa família, Forasta foi certeiro. Serve de guia prático para responder a maioria das falácias que eu mesmo tenho me deparado esses anos todos. Espero economizar um bocado de conversa de bar. Abaixo um trecho e leia completo aqui.

O PT explora politicamente o Bolsa Família? Claro, é isso que governos fazem, e oposição idem. Aécio Neves até já disse que quem criou o Bolsa Família foi o PSDB (não foi, mas criaram coisas parecidas. Lula, quando o Fome Zero não decolou, reempacotou os benefícios criados pelos tucanos, engordou um tanto o bolo, e marketou magistralmente). Minha sugestão é que os governos estaduais e municipais da oposição criem seus próprios bolsa isso e bolsa aquilo. Que bom se os políticos disputarem nosso voto nos dando dinheiro, em vez de tirar…

O questionamento do Bolsa Família mais furado de todos é o moral: é justo uma pessoa receber dinheiro, sem ter trabalhado por isso? Nem merece resposta. A questão não é de justiça, é de isonomia. Os mais ricos já recebem bastante dinheiro sem trabalhar. Embolsam rendimentos de suas aplicações financeiras, aluguel de imóveis e tal. Acionistas de empresas recebem dinheiro sem trabalhar: os lucros. E herdeiros recebem dinheiro sem trabalhar, às vezes sem nunca ter trabalhado de verdade. Muitas crianças brasileiras felizardas já têm seus futuros assegurados, graças ao que construíram seus pais ou avós. Nunca precisarão pegar no batente (e mesmo assim, como sabemos, muita gente abonada continua trabalhando, porque assim se sente realizada, produtiva, estimulada, ganha mais dinheiro ainda etc. Dinheiro é 100%, mas não é tudo…).

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Política & Economia

Esquerdismo, doença infantil

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A passagem da blogueira cubana Yoani Sanchez pelo Brasil deixou a mídia toda em polvorosa. Pudera. Yoani foi entrevistada por quase todo mundo, foi atacada por manifestantes em Feira de Santana, visitou a Câmara dos Deputados com pompa e circunstância e por aí afora. De tão onipresente, tornou-se um assunto chatíssimo de discutir. Ontem, assisti a entrevista que ela concedeu ao programa Roda Viva. E gostei sobremaneira da maioria das respostas dela. Sóbria, consciente, precisa, sem cair nas diversas armadilhas fáceis que prepararam pra ela, respondeu toda pergunta com bastante competência. No entanto, eu nunca achei os textos do seu blog grande coisa.

Mas o que realmente me incomoda e o que é interessante disso tudo é o que a passagem de Yoani revela do esquerdismo infantil que se alastra pela web afora. Já faz muitos anos que essa postura tomou conta de muita gente. É profundamente lamentável que, hoje, estejamos entre a abordagem viciada da direita, representada por alguns veículos de mídia, e esse esquerdismo acéfalo presente em blogs, redes sociais e outros canais. É aquele papo nojento de “blogueiros progressistas” e “PIG – Partido da Imprensa Golpista”, historinha criada e propagada por aí.

Para quem me lê ou me conhece, parece claro que, se fosse me enquadrar em alguma orientação política, claramente seria “de esquerda”. Daí que, também por isso, me incomoda sobremaneira o que vejo acontecer. É uma saraivada de fetiches do esquerdismo mais rasteiro: Yoani foi “acusada” de ser “agente da CIA”, “financiada pelo governo americano” e outras bobagens.

Essa gente – vocês sabem quem são – é incapaz de ter algum “olhar crítico” e “alguma lucidez” para sobre o governo Lula/Dilma, o qual me considero grande admirador, inclusive. O problema é se comportar como fã, como troll, não aceitando opiniões em contrário e atacando quem discorda em manada. Impressiona também a capacidade de defenderem a administração Fidel/Raúl Castro com unhas e dentes, colocando-os sempre como vítimas dos Estados Unidos e ignorando uma série de coisas indefensáveis que acontecem em Cuba. Há os que já visitaram a ilha e, como turistas, naturalmente, encaram as coisas com olhos de fantasia. Eu prefiro ficar com o relato de quem viveu de fato as coisas como elas são, o que vai muito além de Yoani.

É pena que tenhamos que ficar sempre restritos à este dualismo de última categoria. Entre a “direita golpista” e o “esquerdismo infantil”. Gente que parece não enxergar que o mundo é infinitamente mais complexo e “multifacetado” do que eles são capazes de acompanhar e debater.

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