Jornalismo

Ninjas sob ataque

Parece o Hateen, mas é parte da equipe da Mídia Ninja

Parece o Hateen, mas é parte da equipe da Mídia Ninja

Durante as manifestações dos últimos meses no Brasil um certo “movimento” emergiu e chamou atenção pela cobertura “intensa” que conseguiu fazer, transmitindo “direto do front”, pela web, o que acontecia nas ruas do país. A Mídia Ninja logo foi abraçada por boa parte da comunidade jornalística e do público “alternativo” e “independente”, ao mesmo tempo em que pouco se sabia de fato sobre ela, exceto que transmitia pelo canal – a Pós TV – do Fora do Eixo, “coletivo” que alcançou grande destaque na cena cultural nos últimos anos.

Passado o frisson, veio a ressaca. E tá todo mundo querendo entender exatamente do que se trata essa tal “ninja”. Especialistas em redes sociais e contando com ela como seu principal canal de veiculação de transmissões em tempo real, fotos, relatos, denúncias, interação com o público, etc, a NINJA tem hoje mais de 150 mil fãs no Facebook.

Atraindo a atenção da mídia “tradicional” no Brasil e no mundo, a NINJA tornou-se pauta. Só o Observatório da Imprensa já produziu alguns textos sobre o “fenômeno”. De modo geral, recomendo alguns aqui:

O jornalismo em tempo real da Mídia Ninja – Lilia Diniz

A militância e as responsabilidades do jornalismo – Silvia Moretzsohn

Sob holofotes, Mídia Ninja pede dinheiro do público para ampliar alcance

Uma entrevista com Bruno Torturra – André Forastieri

Nada vive de brisa. E é interessante as formas de financiamento que eles pensam em implementar: crowdfunding e assinatura mensal a preços módicos, nesse caso em que há grande identificação do público com os responsáveis pelo conteúdo, tem grande chance de dar certo. Já que os dois conceitos se misturam e guardam ideais semelhantes de “independência” e “revolução”, em contraponto à velha mídia.

Já se discutiu exaustivamente – e bote exaustivamente nisso – no meio independente brasileiro (coloca aí no balaio todo mundo envolvido com isso e os jornalistas em geral) sobre os problemas do “financiamento público” que o Fora do Eixo recebe e a suposta “dependência” do FDE em relação a editais e leis de incentivo federais, estaduais e municipais. Perdi a conta de quantos textos li sobre o assunto e quantas vezes (e em quantos fóruns) isso foi discutido amplamente.

Muitas vezes o FDE é atacado de maneira gratuita e exagerada. Mas isso se deve especialmente ao seu modus operandi que propriamente pela fonte dos recursos em si. Se o montante de recursos públicos injetados no FDE correspondem a menos de 10% do caixa do coletivo, como eles afirmam, há que se questionar o quão essas trocentas outras atividades realizadas são capazes de fechar os outros 90%.

O que começou focado em festivais de música, maiores ou menores, acabou se tornando uma verdadeira máquina de articulação que incluem a Casa Fora do Eixo em SP e BH, a Universidade Livre e um sem número de ideias, projetos e eventos realizados. Me preocupa menos o financiamento do FDE e mais o fato de que a sua prestação de contas nunca foi exatamente clara, transparente e precisa. O coletivo se aproveita, claro, dos frágeis mecanismos de controle que a gestão pública brasileira pratica, seja em leis de incentivo, seja no repasse da União aos municípios e em toda sorte de política, investimento e destinação de recursos, como os para a educação, por exemplo.

Me preocupa menos a fonte da grana do FDE e mais a sua postura de atacar ferozmente e muitas vezes de maneira articulada quem simplesmente ousa questionar suas práticas. O esvaziamento de quem consideram “inimigo”, o caráter de muitos dos seus integrantes, os inúmeros relatos de gente que lidou direta e indiretamente com o FDE nesse tempo todo e a verdadeira balbúrdia que são capazes de fazer quando confrontados.

Me preocupa bastante o discurso pseudo-neo-marxista – ou qualquer outro termo moderno da esquerda festiva que você quiser colocar aqui – usado para cooptar muita gente que mal sabe onde está se metendo, a que, como e porquê o que ela ouve e faz, levada pelas lideranças, têm alguma conexão com todo o resto.

A Mídia NINJA, assim como o próprio FDE no seu início, é recebida com júbilo e delírios revolucionários, é abraçada como uma “alternativa possível”, cria empatia instantânea com o público e a maioria dos jornalistas. E, da mesma forma como o FDE, trata com desprezo, arrogância e ataques quem pensa em criticá-la.

Após a fase do oba-oba, é provável que as coisas comecem a engrossar para os NINJAS. Como já começaram, e foi bem rápido. A entrevista desastrosa com o governador do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, a série de comentários nas redes sociais de gente realizando que “não é bem assim”, as reflexões de quem vive o bagulho no dia a dia.

É bem fácil e perigoso cair na velhíssima dicotomia entre “mídia tradicional” e “alternativa”, entre “dependência do mercado” e “independência financeira”. Estamos num momento em que já não faz mais sentido embarcar em tais conceitos. Nesse momento de transição, em que ninguém tem a fórmula para a nada – porque ela simplesmente não existe – e o que temos são dezenas de caminhos possíveis (e, claro, cheios de problemas), tentativas, arroubos, questionamentos, esforços de grandes e pequenos grupos, todo mundo pensando para onde ir, como fazer, como financiar.

É natural que a Mídia Ninja seja recebida com entusiasmo. Centenas – talvez milhares de colaboradores – de inúmeras formações, experiências e vivências diferentes gerando conteúdo multifacetado em todos os sentidos para um mesmo lugar, financiados de maneira igualmente plural. Soa ótimo, não? E é natural que receba uma tonelada de críticas por estar diretamente vinculada ao seio do FDE – desde financiamento e estrutura até a própria residência de boa parte dos colaboradores. Experiências de “jornalismo colaborativo, coletivo, comunitário e público” surgiram aos montes na última década na web. Poucos realmente vingaram e/ou deram em algo que deixou alguma marca.

Não há modelo. Não há garantias. Na mídia, na cultura, na indústria da informação, nos modos de produção, nos levantes sociais. Não há blindagem. Pagamos o preço por viver exatamente numa época de transição, em que tudo se modifica, se quebra e se reconstrói a todo momento.  A quarta ou a quinta onda.

É aqui que as “referências clássicas” dão as mãos com um Marshall Berman, um Alvin Toffler e as trocentas pessoas que produzem efeito direto e indireto no mundo hoje, na teoria e na prática. No fim, não ter a certeza de qual caminho seguir pode ser a melhor coisa que acontece para essa geração. Resta fazer bom proveito das ferramentas e das discussões que temos ao nosso dispor.

Update:

Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda Viva: nada de novo, mas vale assistir

httpv://www.youtube.com/watch?v=vYgXth8QI8M

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Jornalismo

Grupo Abril: menos jornalismo, mais educação

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2013, um ano cruel para o jornalismo. Não lembro, nos anos recentes, de tantos cortes nas redações com essa expressividade e esse alcance, apelidados carinhosamente pela classe de “passaralho”, fechamento de veículos, etc. É a tal “crise”, a eterna crise, tá sempre ruim pra quem tá lá em cima. É o tal “fim do jornalismo”, morte anunciada, blá blá blá. Para além do apocalipse e das profecias de boteco, já que a questão é muito mais séria, complexa e ampla do que se costuma discutir, vamos focar no Grupo Abril.

Com a morte de Roberto Civita, a faca tá entrando pesada. Semana passada, o grupo anunciou o fim das revistas Bravo!, Alfa, Gloss e Lola, o fim do portal Abril.com, além de demissões nas revistas Quatro Rodas, Viagem & Turismo, Placar, Men’s Health e Veja. No total, aproximadamente 150 funcionários foram demitidos e uma série de mudanças nas equipes de jornalismo, publicidade, marketing e etc foram realizadas. Leia o comunicado oficial.

O mais óbvio é que a Abril perdeu o bonde do online, não soube usar seu imenso valor agregado das publicações impressas e a qualidade dos seus profissionais para oferecer conteúdo exclusivo, relevante (e que fosse rentável) na plataforma digital e por aí afora. Não é surpresa. Poucos grupos do gênero conseguem.

Outro fator explica: a queda de 65% no lucro registrada em 2012.

O resultado representa uma queda de 65,5% em relação ao lucro líquido de 2011, que alcançou R$ 185,88 milhões.

Pesaram no resultado tanto a receita, que caiu de R$ 3,15 bilhões para R$ 2,98 bilhões, como o custo da operação, que aumentou de R$ 1,45 bilhão para R$ 1,58 bilhão.

Enquanto isso, um outro braço da operação, a Abril Educação, teve resultado totalmente oposto, atente:

A Abril Educação encerrou o último trimestre com lucro líquido de R$ 66,9 milhões, o que representa uma alta de 16% quando comparado ao mesmo período de 2011.  Já no acumulado do ano, o lucro líquido mais que dobrou atingindo R$ 100,1 milhões.

A receita líquida da companhia aumentou 8%, atingindo R$ 394,2 milhões no quarto trimestre.

O Ebtida cresceu 20% para R$ 148,6 milhões no período. A margem Ebitda ficou em 38%, quatro pontos percentuais acima do registrado em 2011.

Em julho de 2013, a Abril Educação comprou o grupo Motivo, do Recife, por R$ 100 milhões.

De um modo bem torto e por uma confluência de fatores, a Abril descobriu que a educação é muito mais rentável que o jornalismo.

Colegas se apressam em decretar “o fim da Abril” e esquecem que o poderio dos grandes grupos de comunicação é muito amplo para simplesmente virar pó. No mundo todo, o que se faz é cortar gastos, enxugar veículos, buscar novas fontes de financiamento, apostar numa comunicação multiplataforma. Como funciona no capitalismo em geral, quem irá sobreviver é quem conseguir gerenciar melhor estas questões.

 

Independente de quão precoce a mídia impressa migrou para o online, o sucesso está em entender que são suportes bem diferentes – o que levou um bom tempo para acontecer – e que, ainda que à fórceps, não basta apostar na “sinergia do arrocho”, sobrecarregando equipes inteiras que produzem conteúdo para todas as plataformas, erros comuns que vemos aos montes por aí.

 

A “morte da mídia impressa” é anunciada há pelo menos uns 10 anos. Ainda continuará de pé, e forte, e relevante. É muito mais provável que consigam se reinventar, porque tem poder financeiro para isso, do que chegarem ao fim. O online ainda vive bastante de repercutir a mídia tradicional. E, no momento, não há nenhum “fim” demasiadamente previsível, porque não se trata de apocalipse, de soluções fáceis e profecias falaciosas.
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Ativismo

Como a desigualdade foi criada e como resolvê-la

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Há uma enormidade de fatores que andam contribuindo para uma crescente insatisfação com o nosso modo de vida no geral – o way of life, o modus operandi, o sistema, o establishment – seja em movimentos icônicos e diretos como o Occupy Wall Street, nas recentes manifestações no Brasil e no mundo, seja na própria discussão nas redes sociais, no trabalho, no bar, no café, no diabo.

As pessoas estão incomodadas com as coisas como elas são e começam a pensar porquê elas são desse jeito, como chegamos até aqui e como podemos mudá-las. A desigualdade social em todas as esferas e a relação absurda entre produtividade e remuneração, que só piorou na “era da informação”, a rotina de trabalho de 8 horas diárias, herança da revolução industrial, nosso ambiente de trabalho, as próprias relações pessoais, enfim. Tudo isso está em xeque.

Ontem, o Rodrigo James recomendou este texto: a origem das 8 horas de trabalho e por que devemos repensá-las. Em 2010, publiquei aqui no Crimideia esse artigo, baseado no pensando de Russell: Bertrand Russell, o ócio e a falácia do trabalho. De modo geral, vejo cada vez mais amigos compartilharem textos do gênero, que buscam repensar todo o nosso modo de vida. E isto é, no mínimo, um ótimo começo: quanto mais gente pensando sobre isso, mais gente reverberando informação e crítica, mais gente disposta…

Por fim, o Luiz Freitas recomendou esse ótimo site, didático e interativo, que ilustra de maneira sequencial e com inúmeros gráficos, dados e fontes, o porquê de estarmos onde estamos e o que é possível fazer para mudar isso. E com todos os links disponíveis aqui, espero que você consiga cavar fundo na história. Isso é mais do que slacktivism ou ativismo de fato – e já vimos como os dois estão interligados de maneira umbilical, se retroalimentando, etc – trata-se de transformar o meio em que vivemos em todas as frentes.

Estando “bom” ou não pra mim – e já passei por muitas fases do chamado extrato social – eu não estou satisfeito. Nunca estarei. Você está?

Leia também:

Jason Fried, autor de Rework, afirma que é preciso haver uma mudança radical no modelo de gestão

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Jornalismo

Jeffrey Wigand: o homem que sabia demais

poar01_wigand9605“The Insider” recebeu grande reconhecimento em 1999. Michael Mann vinha do ótimo “Fogo Contra Fogo”, Pacino ainda embarcava em bons projetos e Russell Crowe emendava um filme atrás do outro, antes de chegar ao Oscar por “Gladiador”, um ano depois de “The Insider”. O filme foi nomeado para 7 estatuetas mas não levou nenhuma.

Mais importante que isso é a história real de Jeffrey Wigand, ex-executivo da Brown & Williamson, a terceira maior companhia de tabaco dos Estados Unidos e a coragem que teve (e o inferno pelo qual passou) pra denunciar “práticas abusivas” da empresa, perjúrio e, enfim, ajudar a implodir uma das maiores indústrias do mundo num dos principais casos jornalísticos, políticos e empresariais das últimas décadas.

O artigo no qual o roteiro se baseou, publicado em 1996 pela revista Vanity Fair, está disponível completo online e é obrigatório para todos que se interessam por jornalismo investigativo e etc. Marie Brenner constrói um retrato fiel do labirinto kafkiano que Wigand teve que passar. Leia aqui.

A seguir, uma entrevista com Jeffrey por Charlie Rose:

httpv://www.youtube.com/watch?v=hkTk4HKf9XI

httpv://www.youtube.com/watch?v=13mWPBTGRGs

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Artigos/Matérias/Opinião

O problema da educação no Brasil é (também) falta de recursos

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Eu leio muita atrocidade sobre educação publicada nesse país todos os dias, especialmente de 1 ano pra cá, quando passei a acompanhar diariamente o tema, na mídia, na Câmara, no Senado, nas reuniões das entidades oficiais, eventos, enfim. Os números, esse bicho complicado, sempre são usados para comprovar uma tese, sustentar um argumento, etc.

E aí eis que o ex-ministro da fazenda e economista Maílson da Nóbrega publicou na sua coluna quinzenal na revista Veja esta pérola. Afirma Maílson:

“Daí o equivocado projeto de lei que aumenta os gastos em educação para 10% do PIB. Proporcionalmente, nossos gastos em educação equivalem à média dos países ricos. Passamos os Estados Unidos (5,5% do PIB), investimos mais do que o Japão, a China e a Coreia do Sul, todos abaixo de 5% do PIB”.

O “equivocado projeto de lei” a que o economista se refere é o Plano Nacional de Educação 2011-2020, discutido exaustivamente em todas as instâncias possíveis, com a participação de especialistas e da sociedade civil. Conheça o PNE aqui. O projeto estabelece 20 metas principais que deveriam ser alcançadas até 2020. Entre elas, a destinação de 10% do PIB para a educação pública e também “Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos” e “oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica”, para citar só duas.

Ao afirmar que nosso problema não é falta de dinheiro, Maílson esquece dois dados fundamentais: o professor brasileiro é um dos mais mal pagos do mundo e o investimento médio por aluno está entre os piores dos países da OCDE.

Vejamos:

Professores brasileiros em escolas de ensino fundamental têm um dos piores salários de sua categoria em todo o mundo e recebem uma renda abaixo do Produto Interno Bruto (PIB) per capita nacional. É o que mostram levantamentos realizados por economistas, por agências da ONU, Banco Mundial e Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em um estudo realizado pelo banco UBS em 2011, economistas constataram que um professor do ensino fundamental em São Paulo ganha, em média, US$ 10,6 mil por ano. O valor é apenas 10% do que ganha um professor nesta mesma fase na Suíça, onde o salário médio dessa categoria em Zurique seria de US$ 104,6 mil por ano.

Em uma lista de 73 cidades, apenas 17 registraram salários inferiores aos de São Paulo, entre elas Nairobi, Lima, Mumbai e Cairo. Em praticamente toda a Europa, nos Estados Unidos e no Japão, os salários são pelo menos cinco vezes superiores ao de um professor do ensino fundamental em São Paulo. (FONTE)

Talvez por isso – surpresa! – os professores da educação básica tem abandonado cada vez mais o ofício para se dedicar a outras tarefas, como mostra essa ótima matéria especial da Revista Educação.

Sobre o custo aluno:

Mesmo sendo um dos países que mais aumentaram os gastos com educação entre os anos 2000 e 2009, o Brasil ainda não investe o recomendado do PIB (Produto Interno Bruto) em educação e está longe de aplicar o valor anual por aluno indicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), com base na média dos países membros. Os dados fazem parte do relatório sobre educação divulgado pelo órgão.

Os gastos por aluno na educação primária e secundária cresceram 149% entre 2005 e 2009, mas o Brasil ainda está entre os cinco países que menos investem por aluno, entre os avaliados pela OCDE.

INVESTIMENTOS FINANCEIROS EM EDUCAÇÃO – GASTO ANUAL POR ALUNO

Nível Brasil Média da OCDE Posição do Brasil no ranking
Ensino pré-primário USD 1,696 USD 6,670 3º pior colocado de 34 países
Ensino primário USD 2,405 USD 7,719 4º pior colocado de 35 países
Ensino secundário USD 2,235 USD 9,312 3º pior colocado de 37 países

(FONTE)

Sobre a destinação das receitas dos royalties do petróleo para a educação, Maílson afirma que é um “duplo equívoco”, porque: 1) o problema não é da insuficiência de recursos, como vimos (rs) 2) não é correto financiar políticas públicas permanentes com recursos finitos e voláteis.

 

É verdade. Faz sentido. A destinação dos royalties do petróleo para áreas específicas é um imbróglio que está em pleno debate político há algum tempo, já passou por vetos da presidenta Dilma, discussões acaloradas na Câmara e agora enfrenta grande resistência do governo no Senado, por apoiar a proposta do senador José Pimentel, que alterou muita coisa da proposta original da Câmara, que é defendida por todas as entidades da educação e contou com acirrado debate em comissões especiais.

 

Cabe lembrar que, mesmo que o projeto da Câmara seja aprovado, esse “recurso extra” acrescentaria aproximadamente 1% do PIB nas verbas para a educação, ainda longe dos 10% requeridos. Entenda.

 

Por fim, o ponto principal de Maílson é melhorar a qualidade da gestão dos recursos para a educação. Ponto pacífico em que ninguém é capaz de discordar. Melhorar a gestão dos recursos públicos num todo, com melhor controle dos gastos e ações pontuais de melhorias estruturais do processo todo é algo que o governo vem buscando. Ainda que, claro, de maneira tímida ou um tanto “lenta”. É sempre lento para quem está de fora.

 

Carimbar os recursos dos royalties é um pequeno passo nesse sentido. Já que, até hoje, esse dinheiro tem sido praticamente desperdiçado, como mostra esse estudo.  É preciso muito cuidado ao usar números de maneira leviana para defender uma tese falaciosa. Isso vale não só para Maílson mas para grande parte da cobertura que a mídia faz, seja para a educação, seja em outros assuntos. Evite construir teses que podem ser desmanchadas em 1 minuto.

 

Recomendado:

 

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Política & Economia

Guia prático para a maioria dos clichês sobre o Bolsa Família

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André Forastieri, há muito tempo, se tornou o “agent provocateur” do R7. Apesar de outro camaradinha ter adotado a pecha de “o provocador” do site, que é melhor nem comentar. Conheço o Forasta e conhecendo a figura você entende um pouco mais da mente do cara, o problema é o sinalizador no meio de uma ilha de malucos que é o chamariz que seus textos costumam se tornar. Pois bem, nesse aí, fresquinho, sobre o bolsa família, Forasta foi certeiro. Serve de guia prático para responder a maioria das falácias que eu mesmo tenho me deparado esses anos todos. Espero economizar um bocado de conversa de bar. Abaixo um trecho e leia completo aqui.

O PT explora politicamente o Bolsa Família? Claro, é isso que governos fazem, e oposição idem. Aécio Neves até já disse que quem criou o Bolsa Família foi o PSDB (não foi, mas criaram coisas parecidas. Lula, quando o Fome Zero não decolou, reempacotou os benefícios criados pelos tucanos, engordou um tanto o bolo, e marketou magistralmente). Minha sugestão é que os governos estaduais e municipais da oposição criem seus próprios bolsa isso e bolsa aquilo. Que bom se os políticos disputarem nosso voto nos dando dinheiro, em vez de tirar…

O questionamento do Bolsa Família mais furado de todos é o moral: é justo uma pessoa receber dinheiro, sem ter trabalhado por isso? Nem merece resposta. A questão não é de justiça, é de isonomia. Os mais ricos já recebem bastante dinheiro sem trabalhar. Embolsam rendimentos de suas aplicações financeiras, aluguel de imóveis e tal. Acionistas de empresas recebem dinheiro sem trabalhar: os lucros. E herdeiros recebem dinheiro sem trabalhar, às vezes sem nunca ter trabalhado de verdade. Muitas crianças brasileiras felizardas já têm seus futuros assegurados, graças ao que construíram seus pais ou avós. Nunca precisarão pegar no batente (e mesmo assim, como sabemos, muita gente abonada continua trabalhando, porque assim se sente realizada, produtiva, estimulada, ganha mais dinheiro ainda etc. Dinheiro é 100%, mas não é tudo…).

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Artigos/Matérias/Opinião

Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade

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Artigo publicado originalmente em 16.06.2005, no site Duplipensar. Época em que, como demonstra o texto, eu era tomado por um sentimento revolucionário.

Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade

O conceito de democracia significa basicamente que o poder é outorgado pelo povo. Só que o simples fato de conceder não é garantia de controle do poder proporcionado. Segundo a lógica, os mandatários deste poder deveriam retribuir a confiança que lhes é dada, governando para o povo. Contudo, esta lógica é invertida e o resultado final quase sempre é um pastiche de populismo, neoliberalismo, capitalismo autofágico, egocentrismo, aristocracia e um conluio de interesses que raramente colocam a população em primeiro lugar. As definições de capitalismo e democracia, em separado, não se antagonizam, não revelam atrito entre elas. O fato de o capital ser o início, meio e fim do objetivo global não impede que o poder de cada Estado-Nação seja concedido por seu povo. O ato de votar é inócuo por si próprio. O problema são seus desdobramentos. Se considerarmos que grande parte da população não dispõe de recursos suficientes para uma vida plena, e por extensão, não fazem parte do núcleo do sistema, assumindo posição periférica de meros espíritos fornecedores de material humano para o metabolismo do capital, ou seja, uma existência torturante (sintomatizada na massacrante rotina de trabalho) que traz alienação quanto ao próprio meio em que estão inseridos e que a democracia é comumente utilizada como sinônimo de liberdade, aí sim temos um problema gigantesco que o establishment não é capaz de explicar e/ou solucionar, porque na verdade, simplesmente não pode. Estamos na ditadura do capital. Que se subdivide, principalmente, na ditadura do pensamento. Vivemos num mundo majoritariamente democrático, sim, mas carente de liberdade, tão carente que passou a desconhecer o sentido de tal palavra e se contentar com muito pouco para dá-la como presente. Tornamo-nos medíocres porque isto passou a fazer sentido, é um sintoma clássico do homem moderno.

Patologia expressa na dinâmica capitalista de Marx e Engels em seu Manifesto Comunista:

A burguesia não pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e com eles as relações de produção, e com eles todas as relações sociais. (…) Revolução ininterrupta da produção, contínua perturbação de todas as relações sociais, interminável incerteza e agitação, distinguem a era burguesa de todas as anteriores.

E continuam:

De um lado, tiveram acesso à vida forças industriais e científicas de que nenhuma época anterior, na história da humanidade, chegara a suspeitar. De outro lado, estamos diante de sintomas de decadência que ultrapassam em muito os horrores dos últimos tempos do Império Romano. Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contrário. O maquinário, dotado do maravilhoso poder de amenizar e aperfeiçoar o trabalho humano, só faz, como se observa, sacrificá-lo e sobrecarregá-lo. As mais avançadas fontes de saúde, graças a uma misteriosa distorção, tornaram-se fontes de penúria. As conquistas da arte parecem ter sido conseguidas com a perda do caráter. Na mesma instância em que a humanidade domina a natureza, o homem parece escravizar-se a outros homens ou à sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece incapaz de brilhar senão no escuro pano de fundo da ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da força material.

O capitalismo eleva a democracia, mas apenas para obliterá-la. Evoca a noção de liberdade, mas não a pode manter. Dá conforto material a população, para em seguida, acorrentá-la. A época burguesa, sem precedentes em termos de evolução industrial, tecnológica, econômica, propagação cultural, a verdadeira criadora de um novo mundo, capaz de tantas transformações prodigiosas, criou, igualmente, em seu segundo ato, uma geração de empedernidos inanimados. Trouxe o complexo conceito materialista para o centro das atenções, relegou o desenvolvimento humano – em seu sentido mais pleno – para segunda instância. Por isso o materialismo dialético de Marx se faz necessário. A paradoxal sístole e diástole moderna, a introdução do niilismo no cotidiano, a brutal lógica do sistema capitalista destruiu não só com a verdadeira democracia (tal qual postulava Montesquieu) e a verdadeira liberdade, mas com todas as relações sócio-metabólicas que inescapavelmente construímos.

Procurou se apegar a nossa essência, impregnar nossa alma, fazer-nos escravos de nós mesmos, introduziu a indelével sensação de insignificância pessoal e absoluta impotência diante do grande nada em que vivemos. Criou uma horda infindável de seres massificados, sem personalidade, condicionados cegamente ao sistema que seguem. São estes seres que devemos libertar, destruindo a ilusão da democracia, construindo a realidade da revolução.

Ademais, é preciso lembrar, antes de prosseguirmos, que o capitalismo transformou todas as relações humanas, em todas as esferas existentes. E ao contrário do que nossa incompetente observação histórica nos diz – fruto de nosso egocentrismo mor – a era do capital não é onipresente. Como teve um início, terá um fim. É indubitavelmente o sistema mais poderoso, dinâmico e abrangente que já existiu, contudo, não passa de uma criação humana. Tal regime não está em nossa natureza, não é parte intrínseca da constituição societal e não há motivos para acreditar que seja.

Não apenas gosto de pensar, como também o termo é incrivelmente adequado, de que estamos na sobre-vida deste sistema. Ele já está morto, só não foi enterrado. A aniquilação deste cadáver deve ser nosso próximo objetivo. Um ótimo meio de fazê-lo é expor suas entranhas fétidas, para que o choque de sua repugnância natural desperte em seus elos adormecidos o inquietante sentimento revolucionário. Não utópico, mas palpável. Não alienado, mas fundamentado numa sólida base técnica e teórica. E saindo da inércia para a ação transformadora.

Por ser irracional e auto-destrutiva, sua lógica também o é. Por reduzir o homem a mero reprodutor de capital, acabamos por nos tornar apenas produtos. Não criamos, somos criados. Nosso desenvolvimento é condicionado pelas artimanhas do capitalismo. Seu maior trunfo é nos fazer crer que somos iguais a ele. Tentando convencer-nos de sua paternidade, para que nos enxerguemos nele e o adotemos como manifestação natural e necessária de nossa época.

Tudo, absolutamente tudo o que vivemos hoje poderia ser resumido desta forma: o império aparentemente inextinguível do poderio capitalista no mundo. Todo o resto é conseqüência: a indústria cultural, as manifestações midiáticas, o sistema político, econômico, social, bélico, a personalidade sacrificada de cada indivíduo. Tudo isto é um mal necessário à permanência do capitalismo, pois é disso que ele se alimenta e é disso que suas engrenagens se constituem.

Não existe democracia. Pois não é possível existir democracia na ditadura do capital. A primeira mentira que nos contam é que o poder é concedido por nós, uma tentativa barata de jogar a culpa no povo. Já que os governantes escolhidos são de responsabilidade popular, as conseqüências deste regime também o serão. Como o resultado nunca é o esperado, cria-se a ilusão de que na próxima eleição tudo será diferente. E continuamos a viver neste contínuo fluxo e refluxo de pseudo-esperança que nos é concedido. Apenas uma das artimanhas do sistema. Não há a possibilidade de mudança porque a raiz continua a mesma, o comprometimento idem e o deus mercado reina soberano sob o combalido planeta Terra. Como diria Marx: “O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”. Nosso tempo clama por insurreição. É a necessidade basal do renascimento humano. Iria além, diria que é vital expurgar toda experiência pré-estabelecida que temos, nos despir da casca asquerosa comum que se forma ao longo da vida. Somente nus, verdadeiramente livres, revestidos de isenção mental e da acuidade crítica é que teremos condições de reconstruir a sociedade em que vivemos.

Revolução lenta, dolorosa, recheada de derrotas parciais, momentos de puro desespero, vitórias paliativas, desencanto, revésses. Pensar historicamente é o primeiro passo. Ter a consciência pura e simples de que a verdadeira e efetiva revolução social durará séculos para acontecer torna nossa luta muito mais aprazível. Não devemos deixar que esta eterna mania de querer resultados rápidos emperre a transformação pessoal. Você não precisa ser comunista (até porque o conceito anda muito desgastado e perscrutar suas peculiaridades não cabe neste artigo) para vislumbrar um novo mundo se formando, para se sentir compelido a engajar-se nesta luta. O próprio capitalismo te empurra a isso, a própria civilização, em seu auge, ao atingir seu clímax, inserida no torpor insaciável de suas vísceras, cria a revolução. Recorro ao que diz Marshall Berman em sua obra “Tudo que é Sólido Desmancha no Ar – A Aventura da Modernidade”:


Nossas vidas são controladas por uma classe dominante de interesses bem definidos não só na mudança, mas na crise e no caos. “Ininterrupta perturbação, interminável incerteza e agitação”, em vez de subverter esta sociedade, resultam de fato no seu fortalecimento. Catástrofes são transformadas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e a renovação; a desintegração trabalha como força mobilizadora e, portanto, integradora. O único espectro que realmente amedronta a moderna classe dominante e que realmente põe em perigo o mundo criado por ela à sua imagem é aquilo por que as elites tradicionais (e, por extensão, as massas tradicionais) suspiravam: uma estabilidade sólida e prolongada. Neste mundo, estabilidade significa tão somente entropia, morte lenta, uma vez que nosso sentido de progresso e crescimento é o único meio que dispomos, para saber, com certeza, que estamos vivos. Dizer que nossa sociedade está caindo aos pedaços é apenas dizer que ela está viva e em forma. (p. 94)

O capitalismo não teme crises, guerras, instabilidade. Porque como os últimos cinqüenta anos nos provam, é justamente dessas perturbações que ele retira matéria vital para continuar existindo. A sua notável capacidade em se renovar constantemente, e por extensão, solidificar-se e fortalecer-se, mesmo sob as mais duras crises, é o que o difere de todos os outros sistemas que vigoraram antes. Por isso ele nunca fica obsoleto, nunca exala um odor suficientemente desagradável para que seja definitivamente destruído. Mas, paradoxalmente, é ao nos espelharmos nesta característica do sistema que podemos extinguir sua dialética pseudo-indestrutível. A inquietação resultante de tal metabolismo, a forçosa sensação de renovação; é isto que precisamos absorver e é isso que causará sua ruína. Enquanto as constituições capitalísticas continuam renascendo indefinidamente, o homem moderno vê-se igualmente obrigado a se reestruturar, aprender, desenvolver-se, desapegar, evoluir.

O proletariado capta os meandros da burguesia, entretanto, apenas para continuar a sustentá-la. O capitalismo fomenta o desenvolvimento humano, mas instaura fronteiras cuidadosamente delineadas para ele. O faz não porque enxerga no autodesenvolvimento uma qualidade de vida melhor para seus subordinados e sim porque precisa de melhorias em sua máquina. Suga tudo que lhe interessa e reprime o resto (função exercida pela indústria cultural de Adorno, pelas convenções sociais, pela ditadura do pensamento citada aqui e num contexto “moderno”, até pelo superego freudiano), ao mesmo tempo em que cria revoluções, não se esquece de inventar mecanismos para que tais chamas sejam apaziguadas, o mínimo de liberdade e isenção concedidas são logo soterradas para não oferecem perigo. Todavia, o establishment não é suficientemente bem sucedido neste ponto para manter sua existência intacta e é justamente ao brincar com fogo que ele acaba se queimando.

O nivelamento rasteiro é outro mal necessário à sua permanência, embora saiba que não deve subestimar as capacidades humanas, ele fá-lo porque almeja, com esta mentira, nos renegar a subprodutos de sua linha de produção. São nestes atos falhos (um problema aterrorizantemente insolúvel para o capital) que encontramos a brecha perfeita para sua combustão. A eloqüência imensurável da impetuosidade burguesa acaba por voltar-se contra ela na tênue linha entre a dominação e a liberdade, a manutenção e a revolução, a massificação e a idiossincrasia, a necessidade e a potencialidade. Enquanto muitos permanecem cegos pela eficácia parcial da máquina, outros tantos renascem e se fazem livres. E isto (assim como sua derrocada póstuma) é incontrolável, já que o sistema não conseguiu atingir o “status” de “hermeticamente fechado”.

Marx já provou como as incessantes exigências transformativas burguesas, que precisam ser cada vez mais violentas, torturantes, desiguais, inumanas e irracionais (pois só assim seu capital pode ser sustentado) levarão à sua autodestruição iminente. Como dissemos, estamos na sobre-vida deste sistema (um dos poucos erros de Marx se referem á questão temporal). Em nossa época, não há a necessidade de ser “profeta do caos”, pois se o fizermos, seríamos apenas “profetas do acontecido”. O lodaçal caótico das constituições capitalísticas apresenta-se evidente a todos, fomos obrigados a aprender como se locomover nele, em seguida, a interpretá-lo, enfim chega o momento de o sobrepujar.

Marshall Berman, no supracitado livro, chega a uma conclusão interessante no término de seu capítulo sobre Marx:

Ele (Marx) sabia que o caminho para além das contradições teria de ser procurado através da modernidade, não fora dela. Ele sabia que precisamos começar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais, devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos demais e a nós mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos pelas mesmas forças que nos separam, vagamente cônscios de tudo o que poderemos realizar juntos, prontos a nos distendermos na direção de novas possibilidades humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio através de todos nós. (p. 125)

Toda a história foi composta por lutas. Conflitos de todas as naturezas, relativos a qualquer coisa existente, resultado de questões indissociáveis do ser humano. A que se apresenta neste artigo é a mais visceral da atualidade. Todos são bem vindos para se juntar nesta luta. Não há nada mais a perder, temos um mundo a ganhar.

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